Minhas Férias nos Jogos Olímpicos, por Marcio Rocha

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Anéis Olímpicos no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro Foto: Marcio Rocha/Divulgação

Como todo trabalhador brasileiro, eu também tenho direito a uns dias de férias. Por isso, me arrumei todo e me mandei pro Rio de Janeiro para acompanhar os Jogos Olímpicos.

Primeira impressão, antes de ir para o Rio. Assisti Dinamarca x Iraque e Brasil x África do Sul no estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília. O 0x0 no placar comprovou que a Seleção passa por um dos piores momentos da história. Neymar é a estrela solitária da companhia, que tem até alguns bons jogadores, mas longe, muito longe do que estávamos acostumados (imagina que na Olimpíada de 1996, em Atlanta, tínhamos um time com Dida, Roberto Carlos,  Juninho, Ronaldo e Rivaldo, futuros pentacampeões). Aproveitaremos alguns desses nomes para a Copa da Rússia, mas, sinceramente, espero pouca coisa…

Deixando o futebol um pouco de lado, cheguei à Cidade Maravilhosa. Aliás, deveriam mudar o hino extraoficial do RJ para a canção de Fernanda Abreu. Pisar nas terras cariocas está mais para “purgatório da beleza e do caos” do que para “encantos mil”.  Primeiro ato: deixar o aeroporto do Galeão. Procuro um táxi. Tem fila. Taxistas na frente do aeroporto afirmam que só trabalham com o preço pré-pago. Volto ao balcão. “Quanto é o preço para ir para Copacabana?” “130 reaixxx senhorrrrrr.” “QUE É ISSO? CADÊ O TAXIMETRO?” “Naixxx olimpiadaixxx não tem taxímetro no aerporrrrrto, senhorrrr”. Beleza. Primeira extorsão sofrida na capital temporária do esporte mundial. Paguei desanimado. Quando entrei no taxi, o motorista não me disse nem bom dia. “Bem vindo ao Rio”, pensei.

Chego na avenida Princesa Isabel, onde aluguei um quarto na casa da Val.  Ela é super gente boa, menina baiana que namora um argentino e mora no Rio há quatro anos. Trocamos algumas palavras, me explicou como a coisa funcionava. Contei a história do aeroporto e ela também contou poucas e boas dos taxistas cariocas. “Por isso uso aquele outro serviço”, que todos nós sabemos qual é. Deixo minha mala, ligo para o João Paulo, meu amigo que trabalhava na cobertura dos Jogos. Temos ingressos para o basquete, modalidade disputada na Barra.

Primeira constatação: a Barra é longe pra “dedéu”. Mesmo com caminho livre, com metrô e VLT, demorei mais de uma hora para chegar. Segunda constatação: a Barra não passa de uma Águas Claras com praia (quem é de Brasília vai entender). Parece que ambos os locais foram construídos pelos mesmos arquitetos. Na hora eu percebi a semelhança. Isso faz deles locais ruins? Não mesmo. Só uma constatação.

Pois bem… Fiquei esperando mais um bocado de tempo porque João estava a pé. Nos encontramos e nos cumprimentamos. Entramos sem problema. Não havia filas e uma voluntária berrava animadamente no megafone para orientar os torcedores: “A entrada da ixxquerda está livre, sigam à ixxquerda. A entrada da direita é uma ilusão. Sigam à ixxquerda”. Esse humor carioca é realmente sensacional. Por causa dessas risadas iniciais, o dia já ficou mais leve. E, malandramente, entrei no Parque Olímpico.

Que era um local simplesmente espetacular. Lindo. Belo. Maravilhoso. Lugar imenso, cheio de arenas. Ali, senti que realmente o que as pessoas chamam de “espírito olímpico”. A atmosfera do lugar contagia. Você realmente sente que está participando de algo nobre. Fantástico. Só de respirar aquele ar me fez bem. Então, subitamente, me animei para ver a vitória do Brasil sobre Nigéria pelo basquete masculino.

Depois da partida, fomos comer um sanduíche na praça de alimentação do Parque Olímpico. Foi quando eu senti a segunda extorsão do dia. Os preços eram ABSURDOS. Garrafinha de água, R$ 8,00. Refrigerante, R$ 10,00. Cerveja da marca que patrocinava os Jogos, R$ 13,00 uma latinha que no ambulante não custava R$ 5,00. Segundo os vendedores, o preço incluía o copo, que vinha decorado com as modalidades disputadas. Decoração cara essa hein?

Como estamos de mãos atadas, tivemos que pagar pelo absurdo. Um sanduíche mequetrefe e um refrigerante custaram perto dos R$ 30. Conversando, chegamos a seguinte conclusão: que tínhamos que ir em outro evento, não poderíamos ficar só no basquete. Fomos à bilheteria, perguntamos o que iria acontecer nas próximas horas. “Só temos polo aquático feminino, senhorrrr. Quarrrrrrtas-de-final, R$ 260”. “Não tem outro lugar mais barato não?” “Não senhorrrr, só temos esse”! Ok…

Chegando no palco da disputa, descobrimos que iríamos assistir Rússia x Espanha e Itália x China pelo polo aquático feminino. Terceira constatação: o lugar estava VAZIO. Então descobrimos que essa história de que não tinha ingresso mais barato era uma farsa. Em compensação, nosso ingresso ficava na beira da piscina. Teríamos uma visão privilegiada do evento. Além do que, quem tá no inferno abraça o capeta. Mais uma rodada de cervejas de qualidade discutível e preço extorsivo para alegrar o início de noite.

Quando o locutor da Arena anunciou os times, percebemos que a partida seria bem divertida. Primeiro porque, inexplicavelmente, um torcedor levantou a faixa “PALMEIRAS NÃO TEM MUNDIAL” no meio do jogo de polo. Super apropriado, já que os esportes são parecidos. Depois porque, ao terminar de anunciar o time da Espanha, um torcedor resolveu, em homenagem às atletas, cantar a bela canção de Flávio Venturini, com toda força, para todo ginásio: “TE AMO ESPANHOLA”. A partir daí gritos de incentivos que beiravam a obscenidade foram ditos por todos os torcedores presentes, também extorquidos com os ingressos. Vitória da Rússia, mas, confesso, nem lembro o placar.

Eis que Itália e China entraram no ginásio e deixaram a torcida ficou boquiaberta. O time feminino italiano era LINDO. Já o da China, confesso, nem era lá essas coisas. Além de belo, jogava pacas, principalmente a Teresa, uma loira que deveria ter uns 15 metros de altura e força descomunal. Na minha lembrança, ela afundou todas as chinesas na piscina quando ia disputar as jogadas. Por essas e outras, a torcida toda foi italiana.

No fim, elas venceram a China (e, pelos mesmos motivos, eu não lembro o placar). Para comemorar a vitória, os brasileiros, com aquele italiano cursado nas Escolas de Línguas Joel Santana, cantaram “Funiculí Funiculá”, a plenos pulmões, em homenagem às jogadoras. Elas riram, acenaram, mandaram beijinhos. Alguns torcedores mais afoitos chamaram algumas delas para dar umas voltas pelo Rio de Janeiro, mas nenhuma aceitou. Brasileiro não perde tempo mesmo…

Então chegou a hora de voltar. Mais uma hora percorrendo o trajeto Barra/Zona Sul do Rio. Deu pra sentir como é participar de uma Olimpíada. Realmente, é um evento ímpar, o maior de todos. A volta pareceu mais demorada, mas a diversão compensou. Todos saíram bastante felizes. E isso foi só o primeiro dia. Quem sabe depois eu conto os outros também.

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